Mulheres da associação exibem os frascos dos óleos essenciais produzidos com plantas e ervas medicinais dos quintais de cura. Foto: AMJQSC
No Quilombo São Cristóvão, em São Mateus (ES), os quintais sempre foram mais do que espaços de cultivo. Neles, mulheres mais velhas aprenderam e transmitiram conhecimentos sobre plantas usadas para cuidar da saúde, em preparos como banhos, pomadas, xaropes e garrafadas. Esses espaços também ajudam a manter viva a relação da comunidade com a terra, reunindo práticas de cuidado, memória e formas de uso do território construídas ao longo de gerações.
Com as mudanças no modo de vida, a redução das áreas de cultivo e o afastamento das novas gerações, parte desse conhecimento começou a correr o risco de se perder. Recuperar os quintais, nesse contexto, significa não apenas preservar práticas de cuidado, mas fortalecer a presença das mulheres e das famílias no território e manter vivas formas de relação com a terra que fazem parte da história do quilombo.
Foi para enfrentar esse processo que a Associação das Mulheres Jongueiras Quilombolas de São Cristóvão criou o projeto Terreiro de Cura: Produção de Ervas Medicinais nos Quintais do Quilombo São Cristóvão, apoiado pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos por meio do editalPromoção e Defesa de Direitos Humanos na Bacia do Rio Doce – 2025.
A iniciativa combina formação, cultivo, troca de sementes e mudas e transmissão de conhecimentos entre mulheres de diferentes gerações. No curso Ervas que Rezam, mulheres mais velhas, jovens e outras integrantes da comunidade compartilham conhecimentos sobre as plantas e aprendem também sobre a produção de fitoterápicos.
A formação é realizada em parceria com uma agricultora do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que trabalha com ervas medicinais, enquanto as matriarcas do quilombo contribuem com os conhecimentos que aprenderam ao longo da vida.
Para Josiléia dos Santos do Nascimento, presidente da Associação, aproximar as diferentes gerações é uma das partes centrais do projeto. “A gente entende que os jovens são uma continuidade desses saberes. Se eles não estiverem junto conosco, como vão aprender a conduzir esse processo? Um dos instrumentos que mais prezamos é justamente a transmissão dos saberes para os nossos.”


